Atenção: Esta resenha não possui spoilers. Podem ler sem medo ;)
Jogos
Vorazes
não é a história de uma mocinha
indecisa entre dois rapazes encantadores. Não é a história de dois amantes desafortunados que são obrigados a
enfrentar a guerra que os separa. Não se trata apenas de um reality show onde a recompensa para o vencedor é a manutenção da
própria vida e tampouco de uma guerra.
Os
personagens
desta história não podem ser rotulados como mocinhos ou bandidos, culpados ou
inocentes. Para isso, eu teria que utilizar algum padrão, alguma referência,
mas não consigo pensar em nenhuma que seja justa. Alguns não podem nem ser
definidos como homem ou mulher, no
que eu acho que foi uma grande sacada da autora de utilizar nomes e características
unissex na maioria deles.
Katniss não é a protagonista dessa história, embora
toda a narração seja feita por ela. Assim como a Inconfidência Mineira não é a
história de Tiradentes e a Revolução Farroupilha não é a história de Bento
Gonçalves, Katniss é apenas coadjuvante
na história de um mundo hedonista e cruel.
Tell me who'd have thought that we would be so controversial
And stand against the normal yeah yeah
Are we too outspoken, loud, and messing up the comfortable
Well we've been messed up also yeah
How can we be silent
When a fire burns inside us
Jogos
Vorazes
é uma história do egoísmo humano; de
como a sede pelo poder e pelo prazer pode chegar a níveis absurdos. De como somos
capazes de ignorar completamente o outro quando buscamos nossos próprios
interesses.
Estou escrevendo logo depois de
terminar A Esperança, último livro
da trilogia, e ainda estou profundamente tocada. Assim como aconteceu quando li
Em Chamas, sei que levarei um tempo
até processar tudo. Sei também que algum dia irei reler a série e,
possivelmente, ter uma percepção diferente de certos eventos. O que tenho,
porém, é apenas o que sinto no momento: Culpa.
All have the call but so few will listen
Life is too short, you don't want to miss this
Make up your mind before life passes by
Now is the time to wake up and see this
world won't revolve around you and me so
lets be the change we've all been wating for
Culpa por me ver, muitas vezes,
refletida nos personagens em ocasiões nada nobres. Por saber que a guerra não
começou nos “Dias escuros” ou ao término da 74ª edição dos jogos. Não. Ela pode
estar começando hoje e eu posso ser a causadora.
Talvez eu esteja dramatizando demais.
É só um livro, certo? Certo? Não existe isso de crianças morrendo em uma guerra
patrocinada por adultos que querem se divertir às suas custas. Ninguém esteve
na pele de Katniss, sem saber em quem podia confiar; sem saber se poderia
confiar em si mesma. Nunca houve uma guerra onde o bom e o mau se confundem. Certo?
Errado. Aqui mesmo no Brasil, as já
citadas Inconfidência Mineira e Revolução Farroupilha foram revoltas com
interesses dúbios, onde – olha ele aí de novo – o poder estava em jogo. E isso pra falar apenas das duas sobre as
quais eu estudei um pouco mais...
Até na Bíblia vemos histórias
parecidas. Alguém uma vez comparou Jogos
Vorazes a Deixados para trás. Na
hora, tendo lido apenas um livro da primeira série, descartei imediatamente
qualquer semelhança com a segunda, cujos dezesseis volumes eu já li há alguns
anos. Ao ler Em Chamas, comecei a
mudar de opinião. Pensei que, embora o contexto e as motivações sejam
diferentes, as dificuldades enfrentadas pelos personagens eram, sim, bastante
parecidas. Já em A Esperança percebi
que as motivações são as mesmas e, a esta altura, creio que todos já sejam
capazes de adivinhar o que eu direi a seguir. Sim, o poder. Acrescente à receita a vaidade.
Como resultado, temos o bolo que fez Lúcifer desejar ser maior que o seu
criador e que levou as pessoas da Capital ao estado de alienação em que se
encontram.
I hope you don't mind
That I know your life
Cause I read it every day
And all your faults
Make me feel so good
Cause the media stole my brain
Its so nice to have someone tell me what to think
What is it for? Don't we want more, don't we want more.
Com isso, não quero dizer que a série
tenha algum fundamento religioso; Pelo contrário, a total ausência de elementos
sobrenaturais não passa despercebida. O ponto aqui é como Suzanne conseguiu
tornar seus livros realistas a ponto de conseguirmos
identificar semelhanças nos locais mais improváveis. É por isso que a história
é tão chocante. Porque poderia ser real! Porque pode vir a ser um dia.
Não falei muito do enredo em si,
porque há diversos outros lugares onde vocês podem ler sobre isso; achei mais
importante falar sobre os sentimentos e as reflexões que ela me provocou.
Porque literatura é isso! Não é revista de fofoca onde lemos sobre a vida dos
outros! É conhecer os personagens e se identificar; se envolver, trazer para a
nossa realidade o que lemos. Não acredito em “literatura puramente de entretenimento”,
acredito que qualquer livro, por mais despretensioso que seja, pode ser capaz de despertar reflexões. Aqui
fala alguém que chora em chick-lits adolescentes e sente dor de estômago em
romances desidratantes.
We are not blind, we know the truth
still we won't stand, still we don't choose
We'd rather stay, so comfortable
stuck in our world, that's under control
We may not pull, the trigger but we
stand by and watch, then pretend not to see
Silence is worse, then evil done
what in the world have we become..
Jogos
Vorazes
cumpre bem o papel de mexer com o leitor, sem deixar de lado alguns momentos
belos e até engraçados. Chorei. Muitas vezes, aprendi a gostar de alguém para
vê-lo morrer pouco depois. Outras mortes são tão rápidas que eu só consegui
sentir um nó na garganta por desejar que o personagem tivesse, ao menos, um fim mais digno. Ri, também. Em alguns momentos, deixei-me envolver pela
expectativa de um romance. Xinguei os personagens, tive raiva; discordei de
algumas escolhas da autora no final. Isso sempre vai acontecer; É (quase)
impossível ler um livro e balançar a cabeça em concordância o tempo todo. Mas
isso não tira os méritos da série – e nem mesmo do seu final, que já recebeu
muitas críticas dos leitores, mas que, em geral, eu achei adequado.
Recomendo a todos que
leiam, principalmente as entrelinhas.
Trilha
sonora
Distopias combinam com rock e ouvi muito
os CDs How can we be silent e Love & War, de Barlow Girl, durante a leitura dos três livros. Recomendo tudo
delas, mas deixo aqui as músicas que mais combinaram e que citei no post.
[Editado] Não me lembrei de dizer isso no texto, mas a música tem bastante importância nos livros e está presente em alguns dos momentos mais bonitos. Como eu sempre digo, música é vida. Se a literatura mexe com nossa mente, a música mexe com os nossos sentidos, trazendo os mais diversos sentimentos. E é algo que ninguém pode nos tirar, assim como a Capital não tirou nem mesmo dos distritos mais pobres.
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